A luz por um Momento

 

“A Luz por um Momento” do diretor gaúcho Pedro Foss, será lançado em 2011. Com Cássia Linhares (Record), Maurício Mattar (Globo) e Alexandre Scaquette (ex-BBB), no elenco. A trama se baseia em fatos reais.

Muitas mulheres imaginam o momento em que pegarão nas mãos o resultado com um “positivo”. Quando isso se realiza, passam a construir um
castelo de sonhos, com a chegada do tão esperado bebê. Ouvimos dizer que ser mãe é amar alguém intensamente, mesmo sem ter visto o rosto ou ter tocado no ser que carrega no ventre e que ainda não lhe foi apresentado. É esperar nove meses por uma nova vida, com a certeza de que ela veio para dar muita felicidade. É vibrar a cada sorriso, a cada gesto novo, ficar admirando o sono do bebê e imaginar como será o seu futuro. Porém, em alguns casos, inevitavelmente o castelo de sonhos desmorona-se, dando lugar a uma realidade que nem sempre segue a ordem natural das coisas.

A história de Paula e Tiago

Paula Foss, 18 anos, e Tiago de Carvalho, 22 anos, estavam há quatro anos juntos quando decidiram que queriam começar a sua família. Alguns meses depois, o jovem casal estava radiante ao saber que dentro de pouco tempo iria compartilhar seus corações e lar com seu primeiro filho. No quarto mês de gravidez, quando souberam que Paula estava esperando uma menina, comemoraram na seção de bebês de uma loja infantil. Renata Foss de Carvalho estava por vir. A primeira vez que Paula sentiu seu bebê mexer, ela mal pôde conter sua alegria e correu a ligar para sua mãe, compartilhando
a maravilhosa experiência. Aos seis meses de gestação, tudo apontava para uma menina saudável e linda.

Era hora do chá de fralda. Paula e Tiago aproveitaram o mês de julho para fazer uma festa julina inesquecível. E foi assim que aconteceu. Muitos presentes, incluindo enxoval, berço, além de pipoca e passoquinha.

No oitavo mês, faltando apenas duas semanas para o dia da cesariana, Paula passou a não sentir o seu bebê mexer. Levada ao médico, ouviu as seguintes palavras: “Sinto muito, Paula, mas eu não posso ouvir os batimentos cardíacos do bebê e não posso detectar movimento”. Dali, foi enviada imediatamente ao hospital para uma ultra-sonografia. O exame mostrou que algo estava tragicamente errado e que Renata havia morrido no útero. Nessas condições, o feto é chamado de “natimorto”, porque a morte ocorreu após a 20ª semana de gravidez.

Paula então foi admitida no hospital e colocada em um quarto no final da seção de maternidade. O hospital enviou uma assistente social para falar com o jovem casal privadamente. A assistente encorajou-os a falar sobre sua perda e incentivou-os a chorar abertamente. A dor emocional que acompanhou aquele momento era difícil de aguentar. A mágoa, porém, se agravaria, já que Paula seria forçada a uma indução do trabalho de parto para dar à luz sua filha, uma criança à qual nunca poderia dar carinho ou levar para casa. “Eu ouvia os bebês chorando enquanto nasciam nas salas ao
lado e sabia que o meu não iria chorar”, lembra ela. Após o nascimento, olhou para a forma tão pequena do corpo de sua filha e chegou a vê-la perfeitamente formada. Nesse momento, sentiu uma dor muito imensa por saber que essa criança nunca poderia sentir a vida. “Não é a minha melhor recordação, mas vê-la morta foi a única forma de acreditar que ela estava
realmente morta”, conclui.

O jovem casal, já esgotado física e emocionalmente, teve que voltar para casa. Pegar o carro foi algo muito difícil, já que estariam voltando para a realidade. Juntamente com a família, cuidaram da certidão de óbito de uma filha que nunca viveu e decidiram sobre como cuidar do seu corpo. Outras formalidades, como velório e enterro, também foram providenciadas. “Tomar essas providências foi importante para eu não me iludir. Não quis correr o risco de não acreditar no que estava vivendo. Não quis ser poupado de nada, mesmo vendo ali a interrupção de muitos sonhos. Renata tinha a vida pela frente”, recorda Tiago.

Acordar à noite e ver o berço vazio era muito doloroso. “Desmontamos tudo dias depois, e o que me segura é a fé de que minha filhinha está em um lugar melhor. Outro dia, descobri que o antônimo de morrer é nascer. Não existe
significado oposto para viver, justamente por causa da continuidade. Não tem nada pior para uma mãe do que achar que acabou ali”, disse Paula.

O luto

Renata não teve a chance de viver. Para os que ficam, é duro se confrontar com a realidade de que nem sempre o curso da história segue a ordem natural das coisas. Conforme Jussara Klein, psicóloga e psicanalista, perder
o bebê através de um aborto espontâneo ou retido, ou mesmo já na gravidez avançada, é a maior dor que uma mãe pode sentir, porque houve a interrupção do caminho natural da vida, que é gerar, gestar, parir e criar. “Passar pela perda do filho em qualquer uma dessas fases é passar pela perda de um pedaço de si. A dor é tão imensa que não pode ser descrita. É uma grande mistura de sentimentos, que vão da dor física à psicológica, da raiva, do rancor, à dúvida e à culpa”, explica.

Essa dor física acontece quando há a expulsão do bebê. São contrações iguais às do parto, porém sabe-se que o bebê não irá nascer vivo. De acordo com a psicanalista, a dor psicológica é a que anestesia, que confunde, que dopa. A
raiva é o sentimento que se tem em relação a tudo e a todos ao redor, mas principalmente em relação a si mesma. A esse sentimento está associada a culpa e a dúvida que é causada pela indefinição dos motivos que levaram à perda. Normalmente esses sentimentos ocorrem todos juntos, causando
uma mistura de sensações.

O enlutado, afirma Jussara, tem de usufruir de todo o apoio que puder. “Deve contar com a família, com os amigos, com a religião, com qualquer tipo de apoio que ajude a pessoa a construir o significado da morte”. Ela ressalta que
voltar à rotina também contribui na elaboração da perda. “É fundamental entender que a vida continua”, afirma. A forma de lidar com a dor da perda, contudo, depende de cada mulher. Somente vivendo o luto, a mulher consegue atravessar a dor para continuar a viver. As pessoas próximas,
nesses casos, só precisam se colocar ao lado, se fazer presentes, sem fazer colocações simplistas do assunto, porque somente a mulher que perdeu sabe o valor que tinha aquele filho, e somente ela sabe o tamanho da sua dor.

Paula e Tiago, nos meses que se passaram, foram digerindo a morte, tentando entender a razão da tragédia, a interrupção da vida dessa maneira. A presença dos amigos e dos familiares os ajudou a seguir em frente. “O fato
de não nos culparmos um ao outro também contribuiu para a elaboração do luto. Era um momento novo para todos nós. A companhia das pessoas, as palavras, o carinho… Conviver com crianças, com os filhos de amigos e meus familiares, também nos ajudou. Foi uma maneira de introduzir vida nas nossas vidas”, desabafa Paula.

Com essa tragédia pessoal, o jovem casal compreendeu a importância de sofrer abertamente por uma perda tão grande. Devido a isso, eles agora podem oferecer empatia e orientação para outros casais, com a esperança de um dia poder sair do hospital e levar seu bebê para casa.

Essa matéria foi retirada da Revista Primeira Impressão, e foi adaptada para o cinema no novo filme do diretor Pedro Foss, estrelado por Cássia Linhares, Mauricio Mattar e Alexandre Scaquette.

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~ por pf em Julho 2, 2010.

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